17 Abril 2005

Os clássicos e o estudo de línguas


A Torre de Babel, de Pieter Bruegel (séc. XVI)Posted by Hello

Uma dúvida bastante freqüente entre aqueles que decidem dedicar-se aos estudos clássicos é quanto aos idiomas necessários para seguir carreira. Vários alunos, no decorrer da Introdução aos Estudos Clássicos, no ano passado, perguntavam-se se as "lendas" sobre o número de línguas exigidas eram reais ou não. Eis o que poderíamos responder a eles e a outros que possam ter a mesma dúvida.
Sim, é necessário saber ler sobretudo textos técnicos em outras línguas (os principais periódicos estão em inglês, francês, italiano, espanhol e alemão), além de traduções das obras antigas. Infelizmente, as condições para estudar profissionalmente os clássicos no Brasil são ainda incipientes: a lista de material básico de que não dispomos está longe de ser pequena. Vamos a uma amostra dela.
As traduções
Não temos a obra de Cícero completa em português. Nem a de Tito Lívio. Os Hinos Homéricos apenas recentemente ganharam uma tradução completa no Brasil. Por outro lado, nem sempre o que temos é de grande qualidade: é comum encontrarmos, nas livrarias, traduções feitas a partir de outras línguas, por exemplo, e até mesmo edições descuidadas de grandes traduções.
Em outras palavras: não dispomos sequer do material básico para nosso trabalho, e o pouco que temos nem sempre tem os cuidados merecidos. Mas os ingleses e americanos, os franceses, espanhóis, italianos e alemães (dentre outros) estão fazendo esse trabalho já há bastante tempo, numa tradição secular. O resultado é que eles têm tudo (ou quase tudo) em mãos: no caso dos autores mais famosos, por vezes várias traduções da mesma obra. O único trabalho é, então, escolher a melhor tradução.
Ora, se não temos sequer os textos traduzidos, que dizer de trabalhos sobre os textos? Evidentemente há uma produção universitária de qualidade, ainda que pequena, mas, pelas condições expostas, ela fica necessariamente restrita a especialistas, não tendo circulação em meio ao público leigo interessado.
Os periódicos
Nos últimos anos, tivemos algum avanço no que diz respeito aos periódicos especializados, que funcionam como uma espécie de termômetro da produção universitária de qualidade. Para ficar apenas com dois exemplos, temos, desde 1988, a revista Clássica, promovida pela Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos, e, desde 1997, a Letras Clássicas, da Editora Humanitas, da FFLCH/USP. Isso é bom, mas ainda é pouco, porque alguns dos grandes periódicos internacionais remontam já ao século XIX. Ou seja, mais uma vez se trata de uma questão de tradição, que cabe a nós consolidar.
Os dicionários
No que diz respeito a dicionários, glossários e vocabulários, temos algum material de qualidade: para o português do Brasil, temos o dicionário de Ernesto Faria, que apresenta razoável número de vocábulos (excelente para iniciantes) e uma vantagem sobre os demais: tornou-se autoridade (talvez por ser o único...) no que diz respeito à tradução dos nomes próprios (sim, encontramos nomes próprios nos dicionários gregos e latinos!). Dos portugueses, os mais comuns são os dicionários de Francisco Torrinha e F. R. Saraiva. O Torrinha (como é popularmente conhecido) apresenta um bom número de vocábulos e traz boas indicações no que diz respeito às construções e regências. Já o Saraivão, como mostra o apelido, é o maior no que diz respeito ao número de vocábulos: é raro não encontrarmos a palavra desejada. No entanto, serve-se de uma variante já há muito desusada do Portuguez e é bastante desorganizado na apresentação dos exemplos.
Mas, mesmo tendo seus méritos, todos eles carecem de algo que aparece, por exemplo, no dicionário francês de F. Gaffiot e, sobretudo, nas duas edições da Oxford: a combinação ideal de abrangência vocabular e apresentação sistemática das diversas acepções, construções, regências e exemplos.
Tornando às línguas
Fica claro, assim, que não é impossível dedicar-se aos estudos clássicos sem aprender outras línguas, embora isso represente uma grande limitação, pelo menos com nossa disponibilidade atual de material básico de trabalho. Mas então deparamo-nos com questões práticas importantes: nossas limitações de tempo e recursos para nos dedicarmos ao estudo de idiomas estrangeiros. Como conciliar trabalho e estudos e ainda pagar os cursos? Uma solução democrática é o estudo de línguas pela Internet. A BBC de Londres, a Deutsche Welle e outras instituições apresentam cursos de língua de altíssimo nível gratuitamente pela rede, de modo que o problema monetário fica restrito a ter um acesso de banda larga (embora não seja impossível fazer os cursos por conexão discada). Quanto ao tempo, vinte minutos por dia bastam para os mais ocupados: é exatamente esse o tempo recomendado pelos autores para cada lição dos cursos da BBC, por exemplo.
Por onde começar?
Diante das circunstâncias, eu recomendaria que se começasse pelo inglês. Não apenas porque, bem ou mal, ele já é estudado nas escolas, ou porque estamos mais expostos ao idioma em nossa vida cotidiana, mas sobretudo porque a maior parte do material digitalizado (sites, dicionários e periódicos, além de boa parte dos cursos online de línguas) encontra-se nesta língua.
Dicas
Um bom número de textos clássicos já está disponível em "edição" bilíngüe online. O site mais conhecido é o Perseus: http://www.perseus.tufts.edu/. Nesse mesmo site, você pode encontrar ainda os dicionários de grego e latim da Oxford.
Para os periódicos, o site mais importante é o JStor: http://www.jstor.org/. Nele, você encontrará diversos periódicos (não apenas sobre clássicos, mas de inúmeras outras áreas) em inglês. Mas há um porém: é preciso que você esteja usando um computador de uma instituição afiliada (USP, PUC, Mackenzie, por exemplo, dentre muitas outras) para ter acesso aos textos.
Para o estudo das línguas, fiquemos com três sites: o da BBC (http://www.bbc.co.uk/languages/) é belíssimo. Nele você encontra o nível básico de francês, italiano, espanhol, alemão e até mesmo português (de Portugal), grego moderno e chinês.
O da Deutsche Welle (http://www.dw-world.de/dw/0,1595,2595,00.html), apenas de alemão, apresenta 104 lições para os níveis básico e intermediário. A metodologia é brilhante, e a narração é inteiramente em português.
Para outras línguas, você pode consultar o site Free Online Language Courses: http://www.word2word.com/course.html. Nem todos os cursos apresentados são de excelente qualidade, mas nele você encontrará cursos de latim com exercícios online.
Desfrutem!

08 Abril 2005

Lar Familiaris


O lararium da Casa dos Vettii, em Pompéia Posted by Hello

Quando começamos a estudar os textos latinos, muitas vezes nos deparamos com dados culturais que nos são totalmente estranhos. Já na introdução de nosso método, quando aprendíamos as primeiras formas do verbo esse ("ser"), vimos que Euclião, Fedra e Estáfila, a escrava, diziam juntos: Familia Euclionis sumus ("Somos a família de Euclião"). Mais de um aluno comentou, espantado (e não sem motivo!): "Mas a escrava faz parte da família?!". Outra dessas surpresas é a personagem do deus Lar, que apresenta a peça ao público. Aproveitando a curiosidade dos alunos acerca dessa divindade, passo aqui o primeiro link (em inglês) de apoio a nossos estudos: http://www.vroma.org/~plautus/aulu.main.html. Nesta página, você encontrará o texto latino da Aulularia acompanhado de imagens e explicações sobre a peça, sendo que as primeiras tratam exatamente do deus Lar.
Gaudete, spectatores!


Casa de Terêncio Neo, Pompéia Posted by Hello

03 Abril 2005

Língua Latina I - Seção 1A

Carissimi Discipuli,
Damos início aqui à página de acompanhamento de nossos estudos de língua latina. A idéia é comentar detalhes não vistos em sala de aula, apresentar dicas bibliográficas, referir sites de apoio aos estudos clássicos.
Para os alunos que fazem apenas um ano de latim e pensam em se tornar professores de português, creio ser especialmente importante tecer comentários de ordem filológica, os quais são apenas apontados em aula devido às limitações de tempo. Tendo isso em vista, acompanharemos passo a passo as seções do Reading Latin, fazendo, a partir delas, as ligações com a língua portuguesa. Seguiremos, também aqui, as recomendações de Peter V. Jones e Keith C. Sidwell, autores do método: passar as informações de maneira gradual, sistematizando apenas parte do todo apresentado. Sendo assim, comecemos, como diz Aristóteles, primeiro do que é primeiro.
Seção 1 A
Nesta seção, na parte verbal, sistematizamos a Primeira Conjugação (de vogal temática A) e a Segunda (de vogal temática E). Como elas passaram aos português?
1a conjugação
Am-o > Am-o
Ama-s > Ama-s
Ama-t > Ama
Ama-mus > Ama-mos
Ama-tis > Ama-is
Ama-nt > Ama-m
Não há grandes segredos: a primeira conjugação portuguesa provém diretamente da primeira conjugação latina. Não há mudança nas desinências número-pessoais da primeira e da segunda pessoas do singular; ocorre a "queda" do t na terceira do singular e do plural (fenômeno conhecido como "apócope" no jargão filológico); O u da primeira do plural alterna para o em português; e o -t- da segunda do plural, enfim, "cai" (fenômeno conhecido como "síncope" no jargão filológico).
2a Conjugação
Já a segunda conjugação do português é uma confluência de duas do latim: a segunda e a terceira (que ainda não estudamos). As mudanças são as mesmas que ocorrem na primeira conjugação:
Time-o > Tem-o
Time-s > Teme-s
Time-t > Teme
Time-mus > Teme-mos
Time-tis > Teme-is
Time-nt > Teme-m
Quanto às formas nominais, sistematizamos, até o momento, as duas primeiras declinações do latim. Vimos cinco casos: nominativo, acusativo, genitivo, dativo e ablativo. As palavras, via de regra, passam do latim ao português por meio do acusativo. Assim, temos:
1a Declinação
Acusativo singular -am> -a. Ex: uiam> via.
Acusativo plural -as> -as. Ex: uias> vias.
2a Declinação
Acusativo singular -um> -o. Ex: discipulum> discípulo.
Acusativo plural -os> -os. Ex: discipulos> discípulos.
Essa informação é extremamente importante. Quando virmos a terceira declinação, na seção 1B, entenderemos, por meio do estudo da morfologia latina, o motivo de o plural de palavras como "sermão", por exemplo, ser em -ões, não em -ãos.
No que diz respeito, por fim, às palavras invariáveis, começamos a estudar, nesta seção, as preposições ad e in.
A preposição ad passa a a em português. Vimos que há uma diferença básica entre a construção com ad + acusativo e a construção com dativo: via de regra, em latim, a primeira passa a idéia de movimento, a segunda, apenas a idéia de interesse, sem movimento. O português usa a preposição a para expressar ambas as idéias, como nos exemplos:
a) Movimento: Ele vai a Roma.
b) Interesse: Dou o livro a ele.
A preposição in passa a em em português. In, ao contrário de ad, pode reger dois casos: acusativo e ablativo. Quando se constrói com acusativo, passa a idéia de movimento; com o ablativo, a idéia é estática. O português herdou estes dois usos, embora não haja, evidentemente, distinção de casos:
a) Movimento: Ele entra em casa.
b) Estático: Ele está em casa.
Dica bibliográfica
Para o estudo detalhado e sistemático dessas mudanças, uma obra de referência de fácil acesso é:
Williams, E. B., Do Latim ao Português. Rio de Janeiro: Tempo Universitário, 2001 (7a edição).