15 Março 2006

História e Cultura de Roma




Ao estudarmos uma língua tão distante no tempo quanto o latim clássico, deparamo-nos, inevitavelmente, com fatores históricos e culturais que demandam estudo a parte, a fim de que não limitemos nossos conhecimentos exclusivamente à gramática.
Já na Introdução de nosso método estudamos alguns termos que soam enganosamente próximos, como familia e paterfamilias. Ainda que os traduzamos apressadamente por “família” e “pai de família”, estes termos, em português, referem-se a categorias muito diferentes daquelas dos romanos. Choca-nos, por exemplo, o fato de os escravos pertencerem à família, bem como o direito de vida e morte sobre seus filhos e sua mulher que o chefe da família tinha. Nas palavras de Pedro Paulo Funari, arqueólogo e professor de História Antiga da Unicamp: “Os romanos usavam a palavra familia, que em português é a mesma, para falar de algo muito mais amplo do que nós. Os romanos chamavam de família tudo o que estava sob o poder do pai de família e que dividiam em três grupos: os animais falantes, os mudos ou semifalantes e as coisas. Assim, o pai possuía mulher, filhos e escravos como animais falantes, vacas e cachorros como animais semifalantes e suas casas e mobílias como coisas. Em princípio, o pai tinha direito de vida e morte sobre os membros de sua família, ainda que, na prática, houvesse algumas limitações (Funari: 2001, 98-99).”
A que distância de nós estão estes conceitos! Se o estudo de duas ou três frases da seção introdutória de nosso método nos levaram tão longe, que dizer do que ainda está por vir: textos poéticos requintados, obras históricas, discursos forenses, cartas privadas e para publicação, entre tantos outros gêneros?
Para começar a vencer nossas limitações, recomendo, antes de tudo, para aqueles que lêem inglês, um livro que já tive oportunidade de comentar em aula e que foi escrito especialmente como acompanhamento do Reading Latin, sendo editado pelos autores do método, Peter Jones e Keith Sidwell: The World of Rome – An Introduction to Roman Culture. Este livro combina exercícios históricos mais tradicionais, como a descrição cronológica de eventos e guerras e a explicação das diferentes magistraturas, com abordagens mais recentes, que dão enfoque a aspectos da vida privada dos romanos.
Em português, temos diversos textos interessantes, tanto de nossa produção universitária própria, quanto em traduções. Do primeiro tipo, eu recomendaria os trabalhos (que são em grande número) do já mencionado Pedro Paulo Funari: Grécia e Roma (2001), de onde extraímos o trecho acima; Roma – Vida pública e vida privada (1994), texto de leitura saborosa, que percorre diferentes aspectos da História de Roma a partir da leitura e análise de textos antigos traduzidos; A vida quotidiana na Roma Antiga, livro focado, sobretudo, na análise dos documentos provenientes de Pompéia, a cidade que foi destruída (e preservada) pelo Vesúvio em 79 d. C.; e Antigüidade Clássica – A História e a cultura a partir dos documentos (1995). Dentre as traduções, há um livro um tanto provocativo de Paul Veyne (o primeiro volume da coleção História da Vida Privada) que merece ser lido e relido, ainda que não tenhamos, necessariamente, de concordar com todas as suas idéias.
Enfim, recentemente a Editora Abril lançou um dvd, Pompéia, que reconstitui os últimos momentos da cidade. A edição nacional é completada com uma entrevista com o professor Pedro Paulo Funari.