Salústio, A Conjuração de Catilina, 1-13

Prefácio
1 Convém, a todos os homens que anseiam superar os restantes animais, empenhar-se com o máximo afinco para que não atravessem a vida no silêncio, tal como o gado, que a natureza moldou inclinado e obediente ao ventre. Ora, toda a nossa capacidade reside na mente e no corpo: da mente, exercemos antes o mando, do corpo, a servidão; compartilhamos uma com os deuses, o outro, com as feras. Daí parecer-me mais correto buscar a glória pelos recursos da inteligência do que pelos da força e, uma vez que a própria vida que gozamos é breve, tornar o mais duradoura possível a recordação de nós mesmos. De fato, a glória das riquezas é fugaz e frágil, a virtude mantém-se brilhante e eterna. Mas por muito tempo disputou-se acirradamente entre os mortais se a arte militar teria maior progresso pela força do corpo ou pelo valor da mente. De fato, é preciso, antes que inicies, deliberar e, deliberado, logo agir. Desse modo, ambos, insuficientes por si só, carecem um do auxílio do outro.
2 Então de início os reis – pois, sobre as terras, tal foi o primeiro nome do poder –, opostos, parte exercitava a inteligência, outros, o corpo; até ali a vida dos homens transcorria sem cobiça, a cada um bastava o que era seu. Porém, depois que Ciro, na Ásia, os Lacedemônios e Atenienses, na Grécia, passaram a subjugar urbes e gentes, a ter, como pretexto de guerra, a ânsia de domínio, a depositar a maior glória na maior potência, então se notou, pela experiência e pela prática, que, na guerra, sobretudo a inteligência tem poder. É que se o vigor da mente de reis e comandantes tivesse tanta força na paz como na guerra, seriam mais uniformes e constantes as coisas humanas, nem verias cada uma arrastada para um lado, nem tudo a se mudar e misturar. Pois fácil se mantém um domínio pelas artes com que se o fundou. Porém, quando acometem, em lugar do labor, a indolência, em lugar da temperança e da eqüidade, o desejo e a soberba, muda-se a fortuna, e, com ela, os costumes. Assim, o poder sempre passa do menos bom a alguém melhor.O que aos homens vem do arar, navegar, edificar, tudo obedece à virtude. Mas muitos mortais, entregues ao ventre e ao sono, rudes e grosseiros, atravessam a vida tal como viajantes. Para eles, em clara oposição à natureza, o corpo é prazer, a alma, fardo. Deles eu julgo vida e morte próximas, pois que de ambas se cala. Parece-me viver e desfrutar da alma quem, atento a alguma atividade, busca a glória de feito ilustre ou de bom dote.
3 Ora, na imensa vastidão dos acontecimentos, a cada um a natureza mostra o seu caminho. É belo agir bem pela república, mas não destoa o dizer bem. Na paz como na guerra, é lícito tornar-se ilustre; os que realizaram, os que escreveram as realizações alheias, em grande número se louvam. Quanto a mim, embora seja totalmente diversa a glória que acompanha o escritor e o realizador dos feitos, parece-me sobremaneira árduo escrever as gestas: primeiro, porque se devem igualar feitos e ditos; em seguida, porque, à maioria, os delitos que censuras parecem fruto de malevolência e inveja; quando rememoras o grande valor e a glória dos bons, cada qual recebe indiferente o que julga fácil fazer, o que lhe está acima, toma por falso, como forjado. Mas eu, ainda bem jovem, de início, tal como a maioria, lancei-me com ardor à política, e enfrentei aí muitas adversidades. Pois imperavam, em lugar do pudor, da integridade, da virtude, a audácia, a largueza, a avidez. Embora meu ânimo, desafeito às más condutas, as desprezasse, em meio a tamanhos vícios a idade vacilante mantinha-se corrompida pela ambição; e a mim, divergindo embora dos maus costumes dos demais, atormentava, pela fama e pela inveja, o mesmo desejo de honra que aos restantes.
4 Então, quando meu ânimo teve descanso das muitas misérias e perigos e resolvi manter o restante de minha vida longe da política, não foi minha idéia exaurir meu bom ócio na apatia e na indolência, nem mesmo passar a vida voltado para o cultivo do campo ou para a caça, ofícios de escravos; mas, tornando àquele mesmo projeto e estudo de que me apartara a má ambição, decidi escrever as gestas do povo romano por partes, conforme parecesse, cada qual, digna de recordação; tanto mais que meu ânimo estava livre das expectativas, dos receios, das facções da política. Assim, breve, levarei a termo a conjuração de Catilina da maneira mais verdadeira possível, pois considero tal feito sobremaneira memorável pela novidade do crime e do perigo. É preciso que fale umas poucas palavras acerca dos costumes deste homem antes que dê início à narração.
2 Então de início os reis – pois, sobre as terras, tal foi o primeiro nome do poder –, opostos, parte exercitava a inteligência, outros, o corpo; até ali a vida dos homens transcorria sem cobiça, a cada um bastava o que era seu. Porém, depois que Ciro, na Ásia, os Lacedemônios e Atenienses, na Grécia, passaram a subjugar urbes e gentes, a ter, como pretexto de guerra, a ânsia de domínio, a depositar a maior glória na maior potência, então se notou, pela experiência e pela prática, que, na guerra, sobretudo a inteligência tem poder. É que se o vigor da mente de reis e comandantes tivesse tanta força na paz como na guerra, seriam mais uniformes e constantes as coisas humanas, nem verias cada uma arrastada para um lado, nem tudo a se mudar e misturar. Pois fácil se mantém um domínio pelas artes com que se o fundou. Porém, quando acometem, em lugar do labor, a indolência, em lugar da temperança e da eqüidade, o desejo e a soberba, muda-se a fortuna, e, com ela, os costumes. Assim, o poder sempre passa do menos bom a alguém melhor.O que aos homens vem do arar, navegar, edificar, tudo obedece à virtude. Mas muitos mortais, entregues ao ventre e ao sono, rudes e grosseiros, atravessam a vida tal como viajantes. Para eles, em clara oposição à natureza, o corpo é prazer, a alma, fardo. Deles eu julgo vida e morte próximas, pois que de ambas se cala. Parece-me viver e desfrutar da alma quem, atento a alguma atividade, busca a glória de feito ilustre ou de bom dote.
3 Ora, na imensa vastidão dos acontecimentos, a cada um a natureza mostra o seu caminho. É belo agir bem pela república, mas não destoa o dizer bem. Na paz como na guerra, é lícito tornar-se ilustre; os que realizaram, os que escreveram as realizações alheias, em grande número se louvam. Quanto a mim, embora seja totalmente diversa a glória que acompanha o escritor e o realizador dos feitos, parece-me sobremaneira árduo escrever as gestas: primeiro, porque se devem igualar feitos e ditos; em seguida, porque, à maioria, os delitos que censuras parecem fruto de malevolência e inveja; quando rememoras o grande valor e a glória dos bons, cada qual recebe indiferente o que julga fácil fazer, o que lhe está acima, toma por falso, como forjado. Mas eu, ainda bem jovem, de início, tal como a maioria, lancei-me com ardor à política, e enfrentei aí muitas adversidades. Pois imperavam, em lugar do pudor, da integridade, da virtude, a audácia, a largueza, a avidez. Embora meu ânimo, desafeito às más condutas, as desprezasse, em meio a tamanhos vícios a idade vacilante mantinha-se corrompida pela ambição; e a mim, divergindo embora dos maus costumes dos demais, atormentava, pela fama e pela inveja, o mesmo desejo de honra que aos restantes.
4 Então, quando meu ânimo teve descanso das muitas misérias e perigos e resolvi manter o restante de minha vida longe da política, não foi minha idéia exaurir meu bom ócio na apatia e na indolência, nem mesmo passar a vida voltado para o cultivo do campo ou para a caça, ofícios de escravos; mas, tornando àquele mesmo projeto e estudo de que me apartara a má ambição, decidi escrever as gestas do povo romano por partes, conforme parecesse, cada qual, digna de recordação; tanto mais que meu ânimo estava livre das expectativas, dos receios, das facções da política. Assim, breve, levarei a termo a conjuração de Catilina da maneira mais verdadeira possível, pois considero tal feito sobremaneira memorável pela novidade do crime e do perigo. É preciso que fale umas poucas palavras acerca dos costumes deste homem antes que dê início à narração.
O retrato de Catilina
5 Lúcio Catilina, nascido de nobre estirpe, tinha grande vigor intelectual e físico, mas uma natureza má e depravada. Desde a adolescência, eram-lhe caras as guerras internas, as matanças, as pilhagens, a discórdia civil, e nisso ocupou sua juventude. Seu corpo tolerava, mais do que se pode crer, a fome, o frio, o sono. Seu espírito era ousado, astuto, versátil, simulando e dissimulando o que quer que fosse; ansiava o alheio, dissipava o que era seu, ardia nas paixões; sua eloqüência era bastante, sua sabedoria, parca. Seu espírito insaciável sempre desejava o desmedido, o inacreditável, o inatingível. Depois da tirania de L. Sila, assaltara-lhe um enorme desejo de tomar a República, não medindo os meios para consegui-lo, contanto que obtivesse o poder. Agitava-se mais e mais, com os dias, o seu espírito audacioso devido ao esgotamento do patrimônio familiar e ao remorso dos crimes, alimentados, um e outro, pelas qualidades a que fiz menção anteriormente. Incitavam-no, de resto, os costumes corrompidos da cidade, que eram movidos por males terríveis e diversos, o luxo e a avidez.
Já que a ocasião nos trouxe à mente os costumes da cidade, o próprio tema parece exigir que remontemos ao passado e, breves, discutamos as instituições de nossos antepassados na paz e na guerra, de que modo governaram a República e com que extensão a legaram, como, mudando aos poucos, de bela e grandiosa que era, tornou-se extremamente má e dissoluta.
Primeira Digressão: O passado de Roma
6 A cidade de Roma, segundo a tradição, fundaram-na e habitaram de início os Troianos, que, fugitivos, sob o comando de Enéias, erravam sem morada certa, e, com eles, os Aborígines, raça agreste, sem leis, sem governo, livre e desregrada. Depois que se reuniram dentro de uma única muralha, é incrível mencionar a facilidade com que, apesar da diversidade das raças, da diferença entre as línguas, vivendo cada qual segundo seu costume, acabaram por se fundir: Mas depois que o Estado cresceu devido a seus cidadãos, seus costumes, suas terras, e parecia já bastante próspero, bastante poderoso, tal como se dá na maior parte das coisas mortais, da opulência nasceu a inveja. Então os reis e os povos vizinhos os põem à prova com a guerra, poucos dos aliados lhes vêm em auxílio, pois os demais, abatidos pelo medo, mantinham-se apartados dos perigos. Porém os Romanos, atentos na paz como na guerra, apressam-se, preparam-se, encorajam-se uns aos outros, avançam contra o inimigo, defendem a liberdade, a pátria e os pais com as armas. Depois, tendo já afastado os perigos com o seu valor, levavam auxílio aos aliados e amigos, e forjavam alianças antes concedendo que recebendo benefícios. Apresentavam um governo legítimo, como nome do governo, a monarquia. Os escolhidos, que tinham o corpo debilitado já pelos anos, a mente saudável pela sabedoria, velavam pela república; estes, fosse pela idade, fosse pela semelhança do encargo, eram denominados “pais”. Depois, quando o governo monárquico, que de início servira para conservar a liberdade e ampliar o Estado, tornou-se em soberba e tirania, alteraram o costume, estabelecendo governos anuais e dois governantes: desse modo, julgavam mínimas as possibilidades de que o espírito humano se assoberbasse pelo poder.
Ora, naquele tempo, eles passaram, cada qual, a se distinguir e a pôr à mostra o seu engenho cada vez mais. De fato, para os reis, os bons são mais suspeitos do que os maus, e o valor alheio lhes é sempre temível. Ora, é incrível mencionar com que rapidez a cidade cresceu depois de conseguir a liberdade, tamanho desejo de glória a tomara. Agora, por primeiro, a juventude, mal se tornava apta a suportar a guerra, aprendia a arte militar na prática, com as operações nos acampamentos, e encontravam maior prazer em belas armas e cavalos de guerra do que em prostitutas e banquetes. Para tais homens, portanto, nenhuma fadiga era estranha, nenhum lugar era difícil ou árduo, nenhum inimigo armado, temível; o valor superara todos os obstáculos. Ora, havia, entre eles, uma enorme disputa pela glória: cada qual esforçava-se por golpear o inimigo, escalar muralhas, ser visto ao realizar tal feito; julgavam essas as riquezas, essa a boa reputação e a grandiosa nobreza. Eram ávidos de louvor, pródigos de dinheiro; desejavam uma enorme glória, riquezas honrosas. Poderia enumerar em que ocasiões o povo romano dispersou tropas numerosas de inimigos com um pequeno contingente, que cidades naturalmente protegidas tomou pela luta, se isso não nos afastasse de nossa empresa.
8 Mas, claramente, a Fortuna em tudo é soberana; ela, mais por capricho do que pela verdade, a tudo torna célebre ou obscuro. As gestas dos atenienses, segundo julgo, foram bastante grandiosas e magníficas, mas um pouco menos importantes, todavia, do que diz a tradição. Porém, por haverem florescido ali grandiosos engenhos de escritores, os feitos dos atenienses são celebrados como os mais importantes pelo orbe da terra. Assim, o valor dos que realizaram é considerado tanto maior quanto os engenhos ilustres os puderam elevar com palavras. Mas o povo romano nunca apresentou tal copiosidade, porque os mais sagazes eram sobretudo os mais ocupados: ninguém exercitava a inteligência sem o corpo, os melhores preferiam agir a falar, que outros louvassem suas grandes empresas a que eles narrassem as alheias.
9 Assim, na paz como na guerra cultivavam-se os bons costumes; a concórdia era máxima, mínima, a avidez; entre eles, o direito e o bem tinham vigor pelas leis como pela natureza. Entregavam-se às rixas, às discórdias, às rivalidades com os inimigos, cidadãos disputavam com cidadãos pelo mérito. Nas oferendas aos deuses eram magníficos, em casa, comedidos, para os amigos, fiéis. Com estas duas qualidades, a audácia na guerra, quando a paz chegara, a eqüidade, cuidavam de si e do Estado. Como as maiores provas de tais coisas, tenho os seguintes fatos: de, na guerra, terem-se punido com mais freqüencia os que enfrentaram os inimigos desobedecendo às ordens e os que, com ordens de se retirar do combate, deixaram-no com atraso, do que os que ousaram abandonar os estandartes ou, expulsos de sua posição, bater em retirada; e na paz, o fato de exercerem o poder antes por benefícios que pelo medo, e preferirem perdoar as ofensas recebidas a procurar vingança.
10 Mas quando o Estado cresceu com o labor e a justiça, grandes reis foram domados pela guerra, gentes bárbaras e povos numerosos submetidos pela força, Cartago, rival do poderio romano, aniquilada até a raiz, todos os mares e terras estavam abertos, a fortuna passou a se enfurecer e a pôr tudo em desordem. Aos que haviam facilmente suportado as fadigas, os perigos, as situações duvidosas e difíceis, a eles o ócio e as riquezas, desejáveis em outras circunstâncias, foram um fardo e miséria. Então de início cresceu o desejo de poder, depois, o de dinheiro: tais foram como que a substância de todos os males. De fato, a avidez fez caírem por terra a lealdade, a integridade e os demais bons dotes; em lugar deles, ensinou a soberba, a crueldade, a negligenciar os deuses e a ter tudo na conta de venal. A ambição constrangeu muitos mortais a se tornarem falsos, a ter uma coisa encerrada no peito, outra à mostra na língua, a julgar amizades e inimizades não por si mesmas, mas pela conveniência, e a ter antes a fisionomia que a natureza boa. Tais coisas, de início, crescem aos poucos, por vezes se punem; depois, quando o contágio se espalhou como uma peste, a cidade mudou, o governo, extremamente justo e bom que era, tornou-se cruel e intolerável.
11 Ora, primeiramente, a ambição, antes que a avidez, inquietava os ânimos dos homens, embora tal vício estivesse mais próximo da virtude. É que o bom e o indolente igualmente buscavam para si a glória, a honraria, o poder; mas aquele esforça-se pela via verdadeira, por faltarem a este os bons dotes, luta por enganos e mentiras. A avidez contém em si o desejo de dinheiro, o que nenhum sábio anseia; ela, como que impregnada de maus venenos, efemina o corpo e o ânimo viris, é sempre infinita, insaciável, não diminui com a riqueza ou a pobreza. Ora, depois que L. Sila tomou o poder e fez que a bons inícios seguissem maus resultados, todos roubam, saqueiam, este deseja uma casa, aquele, terras, os vencedores não têm medida ou moderação, cometem, contra os cidadãos, crimes terríveis e cruéis. A isso somava-se o fato de L. Sila, contra os costumes dos antepassados, manter o exército que comandara na Ásia, para que lhe fosse leal, em meio ao luxo e à excessiva libertinagem. Paragens amenas, aprazíveis debilitavam facilmente, na paz, os bravos ânimos dos soldados. Então por primeiro o exército do povo romano acostumou-se a fornicar, beber, admirar estátuas, pinturas, vasos trabalhados, saqueá-los privada e publicamente, espoliar os santuários, macular tudo o que é sacro ou profano. Esses soldados, então, depois de alcançar a vitória, nada deixavam aos vencidos. Se coisas prósperas atormentam os ânimos dos sábios, tampouco eles, com seus costumes corrompidos, teriam moderação na vitória.
12 Depois que as riquezas passaram a ser motivo de honra e a elas seguiam a glória, o poder, a influência, a virtude passou a se enfraquecer, a posse de pouco a ser tida em desprezo, a honestidade a passar por malevolência. Então, pelas riquezas, o luxo, a avidez e a soberba tomaram a juventude: saqueiam, gastam, pouco apreciam o que é seu, desejam o alheio, consideram indiferentes o recato, o pudor, o divino e o humano, sem qualquer escrúpulo ou moderação. Vale a pena, quando conheceres as casas e as vilas construídas à maneira de cidades, visitar os templos dos deuses, que nossos antepassados, mortais profundamente religiosos, construíram. Porém, estes ornavam os santuários dos deuses com sua religiosidade, suas casas, com sua glória, e não tomavam aos vencidos senão o que concedia a ofensa recebida. Aqueles, em contrapartida, homens por demais indolentes, pelo maior dos crimes tomam aos aliados tudo o que os vencedores, varões bravíssimos, deixaram: como se precisamente isto, cometer ofensas, fosse empregar o poder.
13 De fato, por que mencionar o que não é crível senão aos que o viram: montanhas postas abaixo, mares aterrados por diversos cidadãos? A eles, parece-me, as riquezas eram motivo de escárnio, uma vez que se apressavam, pela torpeza, em abusar das riquezas que lhes era concedido ter honestamente. Ora, espalhara-se um desejo não menor de adultério, orgias e demais dissipações: os homens se comportam como mulheres, estas põem à venda a castidade; examinam tudo em terra e mar em busca de diferentes alimentos; dormem antes de ter sono; não aguardam fome ou sede, nem o frio ou o cansaço, mas os antecipam todos pelos excessos. Tais coisas incitavam a juventude, quando faltavam os bens familiares, aos crimes: não era fácil, a um espírito impregnado de vícios, privar-se dos prazeres; por isso entregara-se aos ganhos e aos gastos de todas as formas, sem qualquer moderação.


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