02 Outubro 2005

Salústio, A Conjuração de Catilina § 6-7

[6] Urbem Romam, sicuti ego accepi, condidere atque habuere initio Troiani, qui Aenea duce profugi sedibus incertis vagabantur, cumque iis Aborigines, genus hominum agreste, sine legibus, sine imperio, liberum atque solutum. Hi postquam in una moenia convenere, dispari genere, dissimili lingua, alii alio more viventes, incredibile memoratu est, quam facile coaluerint: ita brevi multitudo dispersa atque vaga concordia civitas facta erat. Sed postquam res eorum civibus, moribus, agris aucta satis prospera satisque pollens videbatur, sicuti pleraque mortalium habentur, invidia ex opulentia orta est. Igitur reges populique finitumi bello temptare, pauci ex amicis auxilio esse; nam ceteri metu perculsi a periculis aberant. At Romani domi militiaeque intenti festinare, parare, alius alium hortari, hostibus obviam ire, libertatem, patriam parentisque armis tegere. Post, ubi pericula virtute propulerant, sociis atque amicis auxilia portabant magisque dandis quam accipiundis beneficiis amicitias parabant. Imperium legitumum, nomen imperi regium habebant. Delecti, quibus corpus annis infirmum, ingenium sapientia validum erat, rei publicae consultabant; hi vel aetate vel curae similitudine patres appellabantur. Post, ubi regium imperium, quod initio conservandae libertatis atque augendae rei publicae fuerat, in superbiam dominationemque se convortit, inmutato more annua imperia binosque imperatores sibi fecere: eo modo minume posse putabant per licentiam insolescere animum humanum.

6 A cidade de Roma, segundo a tradição, fundaram-na e habitaram de início os Troianos, que, fugitivos, sob o comando de Enéias, erravam sem morada certa, e, com eles, os Aborígines, raça agreste, sem leis, sem governo, livre e desregrada. Depois que se reuniram dentro de uma única muralha, é incrível mencionar a facilidade com que, apesar da diversidade das raças, da diferença entre as línguas, vivendo cada qual segundo seu costume, acabaram por se fundir:
Mas depois que o Estado cresceu devido a seus cidadãos, seus costumes, suas terras, e parecia já bastante próspero, bastante poderoso, tal como se dá na maior parte das coisas mortais, da opulência nasceu a inveja. Então os reis e os povos vizinhos os põem à prova com a guerra, poucos dos aliados lhes vêm em auxílio, pois os demais, abatidos pelo medo, mantinham-se apartados dos perigos. Porém os Romanos, atentos na paz como na guerra, apressam-se, preparam-se, encorajam-se uns aos outros, avançam contra o inimigo, defendem a liberdade, a pátria e os pais com as armas. Depois, tendo já afastado os perigos com o seu valor, levavam auxílio aos aliados e amigos, e forjavam alianças antes concedendo que recebendo benefícios. Apresentavam um governo legítimo, como nome do governo, a monarquia. Os escolhidos, que tinham o corpo debilitado já pelos anos, a mente saudável pela sabedoria, velavam pela república; estes, fosse pela idade, fosse pela semelhança do encargo, eram denominados “pais”. Depois, quando o governo monárquico, que de início servira para conservar a liberdade e ampliar o Estado, tornou-se em soberba e tirania, alteraram o costume, estabelecendo governos anuais e dois governantes: desse modo, julgavam mínimas as possibilidades de que o espírito humano se assoberbasse pelo poder.


[7] Sed ea tempestate coepere se quisque magis extollere magisque ingenium in promptu habere. Nam regibus boni quam mali suspectiores sunt semperque iis aliena virtus formidulosa est. Sed civitas incredibile memoratu est adepta libertate quantum brevi creverit: tanta cupido gloriae incesserat. Iam primum iuventus, simul ac belli patiens erat, in castris per laborem usu militiam discebat magisque in decoris armis et militaribus equis quam in scortis atque conviviis lubidinem habebant. Igitur talibus viris non labor insolitus, non locus ullus asper aut arduus erat, non armatus hostis formidulosus: virtus omnia domuerat. Sed gloriae maxumum certamen inter ipsos erat: se quisque hostem ferire, murum ascendere, conspici, dum tale facinus faceret, properabat. Eas divitias, eam bonam famam magnamque nobilitatem putabant. Laudis avidi, pecuniae liberales erant, gloriam ingentem, divitias honestas volebant. Memorare possum, quibus in locis maxumas hostium copias populus Romanus parva manu fuderit, quas urbis natura munitas pugnando ceperit, ni ea res longius nos ab incepto traheret.


Ora, naquele tempo, eles passaram, cada qual, a se distinguir e a pôr à mostra o seu engenho cada vez mais. De fato, para os reis, os bons são mais suspeitos do que os maus, e o valor alheio lhes é sempre temível. Ora, é incrível mencionar com que rapidez a cidade cresceu depois de conseguir a liberdade, tamanho desejo de glória a tomara. Agora, por primeiro, a juventude, mal se tornava apta a suportar a guerra, aprendia a arte militar na prática, com as operações nos acampamentos, e encontravam maior prazer em belas armas e cavalos de guerra do que em prostitutas e banquetes. Para tais homens, portanto, nenhuma fadiga era estranha, nenhum lugar era difícil ou árduo, nenhum inimigo armado, temível; o valor superara todos os obstáculos. Ora, havia, entre eles, uma enorme disputa pela glória: cada qual esforçava-se por golpear o inimigo, escalar muralhas, ser visto ao realizar tal feito; julgavam essas as riquezas, essa a boa reputação e a grandiosa nobreza. Eram ávidos de louvor, pródigos de dinheiro; desejavam uma enorme glória, riquezas honrosas. Poderia enumerar em que ocasiões o povo romano dispersou tropas numerosas de inimigos com um pequeno contingente, que cidades naturalmente protegidas tomou pela luta, se isso não nos afastasse de nossa empresa.