Laboratório de Tradução - Corpus de Traduções

Marco Túlio Cícero
I. 1. Diz-se haver tantos gêneros de oradores quanto de poetas, mas a situação é diferente, pois a eloqüência é única, ao passo que a poesia admite formas variadas. De fato, é característico da poesia, seja ela trágica, cômica, épica, mélica ou mesmo ditirâmbica - mais usada pelos gregos do que [pelos latinos] - ter um gênero próprio, distinto dos demais gêneros. Assim, na tragédia, o estilo cômico constitui um erro, bem como, na comédia, o trágico é uma deformidade. Quanto aos outros gêneros de poesia, cada um apresenta um tom determinado e um acento familiar aos conhecedores. 2. No que concerne aos oradores, entretanto, se alguém enumera muitos gêneros, julgando uns pomposos, graves ou opulentos; outros finos, delicados ou concisos, outros intermediários a esses, situados a meio caminho dos dois, tece algumas considerações sobre os homens, mas fala pouco sobre a oratória. Nesse assunto, busca-se o que é excelente; e sobre o homem, diz-se o que é. Dessa maneira, pode-se afirmar que Ênio é o maior poeta épico, se assim parece a alguém, que Pacúvio é o maior trágico e Cecílio, provavelmente, o maior cômico. 3. Contudo, não divido o orador por gênero, pois procuro o orador perfeito. E há somente um tipo de orador perfeito, e os que desse se afastam não diferem dele em gênero, como Terêncio de Ácio, mas não são iguais no mesmo gênero. O melhor orador é aquele cujo discurso instrui, deleita e comove os ouvintes. Instruí-los é um dever; deleitá-los, um favor; comovê-los, uma necessidade. 4. Todavia, deve-se permitir que um faça isso melhor que outro, mas a diferença não está no gênero, mas no grau. O melhor é seguramente um só, e o segundo melhor é o que se assemelha a ele. Daí concluir-se que o que menos se assemelha ao melhor é o pior.
II. Uma vez que a eloqüência consiste de palavras e de idéias, devemos procurar, ao falarmos uma língua pura e correta - que é o latim -, um vocabulário elegante no que diz respeito tanto aos termos próprios quanto aos figurados; dentre os próprios, devemos selecionar os mais distintos; dentre os figurados, atentos à semelhança entre eles, devemos empregar com parcimônia os termos impróprios. 5. Quanto às idéias, há tantos gêneros quantos eu disse haver de estilos oratórios: para ensinar, há as contundentes; para deleitar, as quase engenhosas e, para comover, as graves. Entretanto, as palavras admitem uma certa estruturação que permite produzir dois efeitos, ritmo e leveza, ao passo que as idéias têm a sua formulação, uma ordem apropriada para a demonstração de provas. De tudo isso [assim como dos edifícios], a memória é como que o alicerce, e a atuação, a fachada. 6. Assim, será o orador mais perfeito aquele que dispuser dessas características no mais alto grau; mediano, num grau médio; e o que delas dispuser no grau mais baixo, este será o pior. Entretanto, todos serão designados oradores assim como todos, até mesmo os ruins, são chamados pintores, não diferindo entre si pelos gêneros, mas por suas habilidades. Dessa maneira, não é orador quem não deseja ser igual a Demóstenes. Mas Menandro não quis ser igual a Homero, porque o seu gênero era outro. O mesmo não acontece com os oradores e, se houver um que, buscando a densidade, deixe de lado o refinamento, ou outro que deseje ser mais penetrante do que excessivamente rebuscado, ainda que se insira num gênero aceitável, certamente não o é no melhor, se o melhor é aquele que reúne todas as virtudes.
III. 7. Decerto, falei mais brevemente do que o assunto o exigia, mas para o que nos propomos no momento não há por que se estender mais; e como há somente um único gênero de oratória, queremos saber qual é. Ora, é semelhante àquele que floresceu em Atenas. Depois disso a característica essencial dos oradores áticos é ignorada, embora a sua glória seja conhecida. Na verdade, muitos viram um só lado - que dentre os áticos não há erros –, mas poucos enxergam o outro - que há muitas coisas dignas de elogios. Com efeito, há imperfeições na idéia, se ela contiver algo de absurdo, estranho, sem acuidade ou engenho; nas palavras, se trazem algo vulgar, abjeto, inconveniente, grosseiro, tirado de longe. 8. Esses erros foram evitados por quase todos os que são considerados áticos ou que falam à maneira ática. E até onde tenham obtido êxito, que sejam ao menos considerados sãos e concisos, mas como os atletas, a quem se permite exercitarem-se no ginásio, desde que não disputem a coroa nos jogos olímpicos. Esses, embora estejam livres de todas as doenças, não se contentam apenas com uma boa saúde, almejam força, músculos, sangue e também uma cor atraente. Imitêmo-los, se formos capazes; se não, imitemos antes aqueles cuja saúde é perfeita - o que é característico dos áticos - do que aqueles cuja opulência está carregada de erros; e desse tipo a Ásia produziu em abundância. 9. E quando o fizermos – se algum dia conseguirmos, pois é uma grande coisa – imitemos, se for possível, Lísias e, sobretudo, o seu refinamento; ele, em muitas passagens, é bastante elevado, mas, porque escreveu sobre causas menores, a maioria delas de âmbito privado, em favor de outro e sobre assuntos de pouco interesse, é considerado árido, embora tenha lapidado intencionalmente o seu próprio estilo em função dos gêneros das causas menores.
IV. Então, aquele que assim proceder – quando deseja empregar um estilo pomposo, não é capaz de fazê-lo – será considerado seguramente orador, mas dos menores. Um grande orador, em contrapartida, deve ser capaz de falar daquela maneira ao tratar de causas de tal gênero.
10. Assim, Demóstenes certamente pode falar num estilo rasteiro, mas Lísias talvez não possa fazê-lo num estilo elevado. Contudo, se julgam que eu deveria ter discursado em favor de Milão, quando o exército se posicionava no fórum e em todos os templos ao seu redor, como se defendesse uma causa particular diante de um único juiz, estão medindo a força da eloqüência pela sua própria habilidade e não pela natureza do assunto.
11. Assim sendo e porque já se espalhou a conversa de alguns oradores, uma parte dizendo que eles falam à maneira ática; outra, que nenhum de nós o faz, deixaremos de lado os primeiros; os fatos por si lhes são resposta suficiente, uma vez que não são chamados para advogar nos tribunais ou, quando isso ocorre, são motivo de escárnio; aliás, o fato de provocarem o riso, isso mesmo já seria próprio dos áticos. No entanto, aqueles que não querem que discursemos à moda ática, mas que confessam eles mesmos não serem oradores, se têm ouvidos apurados e senso crítico, são como os convidados a apreciar uma pintura, que, mesmo sem habilidade para pintar, têm certa capacidade de julgamento. 12. Mas, se, ao contrário, usam a sua inteligência para desdenhar do que ouvem e não sentem prazer em nada elevado e magnífico, que declarem o seu gosto por um estilo preciso e polido e manifestem o seu desprezo pelo que é grandioso e ornado; mas, que parem de dizer que falam à maneira ática somente os que o fazem com simplicidade, isto é, com concisão e pureza. Afinal, um estilo grandioso, ornado, pomposo, com a mesma pureza, é próprio dos áticos.
Há alguma dúvida se desejamos que o nosso discurso seja apenas suportável ou também digno de admiração? Afinal, já não buscamos o que é discursar à moda ática, mas o que é discursar bem. 13. Daí inferir-se por que, dos oradores gregos, foram os mais notáveis aqueles que viveram em Atenas, e por que, dentre eles, Demóstenes foi o primeiro sem grandes dificuldades. Aquele que o imita, falará não só à moda ática, mas também com perfeição, de forma que, tendo como modelo os áticos, falar bem signifique falar à maneira ática.
V. Mas como houvesse grande engano quanto à natureza desse gênero oratório, julguei que deveria executar uma tarefa que fosse útil aos estudiosos, embora a mim, particularmente, não fosse necessária.
14. Assim, traduzi os discursos mais famosos - contrários um ao outro - dos dois mais eloqüentes (oradores) Áticos, Ésquines e Demóstenes. Todavia, não os traduzi como um intérprete, mas como um orador; mantive as mesmas idéias, as mesmas formulações e as mesmas figuras, mas adaptei as palavras ao nosso uso. Não vi necessidade de traduzi-las literalmente, mas conservei o seu estilo e o seu vigor, pois não julguei ser conveniente ao leitor enumerá-las uma a uma, mas dar-lhes o mesmo valor.
15. Este meu trabalho procura fazer com que nossos concidadãos saibam o que exigir daqueles que se pretendem áticos e a que fórmula de discurso os convidam.
Mas hão de ressaltar Tucídides; alguns, com efeito, admiram a sua eloqüência. E isto é justo, mas nada tem a ver com o orador que procuramos. Pois uma coisa é relatar os fatos numa narrativa, outra é fazer uma acusação ou refutá-la, apresentando argumentos; uma outra coisa é prender a atenção do ouvinte, enquanto narra; outra, é instigá-lo. “Mas ele fala muito bem”. Acaso melhor do que Platão? 16. Todavia, é necessário ao orador, que estamos procurando, apresentar as disputas forenses num estilo oratório próprio para ensinar, deleitar e comover.
VI. Porque, se houver alguém que confesse advogar causas no fórum no estilo de Tucídides, demonstrará não ter a mais vaga idéia do que ocorre na vida política e judiciária, mas se tiver elogiado Tucídides, junte o meu parecer ao seu.
17. E mesmo Isócrates a quem Platão, divino autor, quase seu contemporâneo, fez Sócrates elogiar admiravelmente em Fedro e a quem todos os estudiosos proclamaram ser o maior orador, mesmo ele não o incluo nessa lista. É que o seu discurso não se aplica em um campo de batalhas nem se trava com uma espada de ferro, mas com floretes.
E comparando as coisas mais insignificantes com as superiores, eu invoco os dois mais nobres gladiadores. Ésquines, tanto quanto Esernino, não é, como afirma Lucílio, “um homem desprezível”, mas vivo e sagaz: nisso ele combina com Pacidiano - de longe o melhor, desde a origem da humanidade. De fato, eu penso que não se pode cogitar nada tão divino quanto aquele orador.
18. Dois gêneros de objeções colocam-se a este trabalho. Uma é esta: “O original grego é melhor.” Quanto a isso, alguém poderia perguntar se eles próprios podem fazer algo melhor em latim. Outra: “Por que devo ler estas traduções antes dos originais gregos? Mas, ao mesmo tempo, eles aceitam a Ândria e os Sinefebos, assim como [preferem Terêncio e Cecílio a Menandro, e não] a Andrômaca, ou a Antíopa, ou os Epígonos em latim; [e ainda lêem Ênio, Pacúvio e Ácio antes que Eurípides e Sófocles]. E por que, então, demonstram aversão aos discursos traduzidos do grego, se não a têm quando se trata de poesia?
VII. 19. Mas voltemos já à nossa tarefa, expondo uma causa que foi apresentada em juízo. Havia, em Atenas, uma lei segundo a qual “ninguém do povo poderia apresentar um projeto de lei para coroar alguém, ainda no exercício de sua magistratura, enquanto este não tivesse prestado contas de suas funções”; e outra, estabelecendo que “aqueles a quem o povo desse recompensas, que as recebessem em uma assembléia; e os que fossem recompensados pelo Senado, no Senado”. Demóstenes era encarregado de restaurar os muros e o fez com dinheiro de seu próprio bolso. Por causa disso, ainda que Demóstenes não tivesse prestado contas de seu cargo, Ctesifonte propôs numa lei, fixando que uma coroa de ouro lhe fosse dada e que a entrega ocorresse no teatro onde o povo seria convocado, embora o lugar não fosse apropriado para uma assembléia legal; além disso, deveria ser proclamado que «ele foi recompensado pela virtude e benevolência que demonstrara pelo povo ateniense».
20. Ésquines chamou Ctesifonte em juízo sob a acusação de propor um texto contrário às leis antigas, quando concedeu uma coroa a Demóstenes, sem que este tivesse prestado contas de suas funções, e quando permitiu que isso se fizesse no teatro; acusou-o ainda de falar mentiras sobre a sua virtude e sobre a sua disposição, já que Demóstenes não era nem um homem bom nem benemérito na cidade.
Essa causa difere do nosso procedimento habitual, mas é importante. É que ela envolve, de ambas as partes, uma interpretação bastante sutil das leis e uma controvérsia extremamente grave quanto aos serviços prestados ao Estado.
21. É que Ésquines havia sido acusado de crime capital por Demóstenes, por ter forjado uma embaixada e, para vingar-se de seu inimigo, submeteu os feitos e a reputação de Demóstenes a julgamento em nome de Ctesifonte. Por isso, deu menos atenção ao fato daquele não ter prestado contas de suas funções do que ao de ter sido louvado como um ótimo cidadão, quando era ímprobo. 22. Ésquines apresentou a acusação contra Ctesifonte quatro anos antes da morte de Felipe da Macedônia, mas o julgamento só ocorreu alguns anos depois, quando Alexandre já era senhor da Ásia. Dizem que gente de toda a parte da Grécia assistiu ao julgamento. O que, pois, valia a pena ver senão o embate cuidadoso de grandes oradores às voltas com uma causa muito grave e inflamados pela inimizade? 23. Eu mesmo, se conseguir apresentar os seus discursos, como espero, valendo-me de todas as suas virtudes, ou seja, das suas idéias, das figuras de pensamento e da ordem dos tópicos, perseguindo as palavras de modo que estas não se afastem de nossos costumes (embora nem todas sejam tradução literal do grego, nós nos esforçamos para que sejam do mesmo gênero), haverá uma regra à qual se adequarão os discursos daqueles que pretendem discursar à maneira ática. Sobre mim já é o bastante. Finalmente, ouçamos o próprio Ésquines falar latim.


<< Início